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Cria-se
um cenário em que
os profissionais olham o colega de trabalho como inimigo e vivem num
estado de tensão permanente. Esse modelo leva ao desgaste,
ao
estresse e, portanto, à ruptura interna -- nome,
aliás,
que se dá ao enfarto, resultado de um estresse na capacidade
de ação do músculo
cardíaco. Alguns
chefes enfartam seus grupos. E depois reclamam que eles não
são capazes, não têm força.
Um conselho
para os chefes que ainda agem assim: já está
ficando
tarde para mudar de comportamento. Não é
esgotando seu
maior ativo, que são as pessoas, que você vai
atingir os
resultados que espera. Isso é sinal de estupidez.
Há 20
anos, as empresas trabalhavam a noção de
competência
individual. Hoje, a lógica é outra. É
preciso
estruturar a força das equipes. Se você ganha, eu
ganho;
se você perde, eu perco. E essa relação
interdependente não pode admitir a
instalação do
confronto interno.
Com
a morte do papa João Paulo II, muita gente questionou:
estamos
nos despedindo do último grande líder mundial?
Não,
não estamos. Mas estamos caminhando para um novo formato de
liderança, em que não haverá mais uma
grande
referência no país, na cidade ou na empresa, mas,
sim,
vários nomes inspiradores, nas mais diversas
áreas de
atuação. Quem afirma é o
filósofo
paranaense Mario Sergio Cortella, de 51 anos. Também foi
é
professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da
Religião da PUC-São Paulo. A arte de liderar,
tema que
vem tirando o sono de muitos executivos. "As
organizações
vivem uma crise de liderança e um dos principais erros, no
mundo corporativo, é desenvolver meros agrupamentos de
pessoas, e não comunidades de trabalho", alerta Mario
Sergio.
A
MORTE DO PAPA JOÃO PAULO II SINALIZA O FIM DA ERA DOS
GRANDES
LÍDERES MUNDIAIS?
Ainda
temos grandes nomes que nos alertam contra a
acomodação,
como Nelson Mandela e o Dalai Lama, símbolos mundiais da
paz.
No Brasil, podemos citar Dom Paulo Evaristo Arns [cardeal aposentado
que foi uma das vozes da chamada ala progressista da Igreja] e, no
campo da expressão estética, o escritor Ariano
Suassuna. Mas vejo, sim, um processo de
segmentação da
idéia de liderança, em que passamos a ter cada
vez
menos exemplos de líderes universais e mais
referências
de lideranças locais, em diferentes áreas. O que
precisamos fazer é tirar do anonimato esses
líderes do
nosso cotidiano, para que possam inspirar coletivamente. A imprensa
fez isso com Zilda Arns [fundadora da Pastoral da Criança],
por exemplo, que é uma referência absoluta no
trabalho
com crianças, mas não era conhecida. Esse
é o
nosso desafio: descobrir o líder que há em cada
um de
nós e o que está ao nosso lado. Isso me lembra
uma
frase que ouvi de um senhor de 80 anos de idade, em Palmas, no
Tocantins, após uma palestra: "Hoje eu entendi uma coisa
que meu pai sempre dizia e eu nunca tinha compreendido: a vida
é
muito curta para ser pequena". O líder é
exatamente alguém que nos inspira a não
"apequenar"
a vida, o trabalho, a empresa, a comunidade, a
nação, o
mundo.
COMO
UM DOS ÚLTIMOS GRANDES LÍDERES MUNDIAIS, QUAIS AS
LIÇÕES DE JOÃO PAULO II?
Algo
em que vale a pena se inspirar é sua grande capacidade de
comunicação. Além disso, ele saia da
sua redoma
e ia até as pessoas, o que é muito positivo. Por
outro
lado, era um líder que centralizava algumas
decisões, o
que eu vejo como um deslize. Por conta disso, não gerou
condições tão imediatas para sua
substituição.
E é sempre uma encrenca quando um líder
não
deixa ninguém pronto a assumir o seu lugar. No mundo
corporativo, algumas pessoas têm receio de formar
profissionais
que possam vir a traí-los, de olho na sua
posição.
Mas, se isso acontece, o erro foi seu: você não
soube
formar esse líder.
COMO
SE FORMA UM VERDADEIRO LÍDER?
Cada
um tem, na empresa, uma tarefa de líder, em que aprende e
ensina, em que lidera pessoas ou processos. Três pontos
são
fundamentais para, de fato, exercer essa liderança: aprender
com o outro, distinguir o novo da novidade e inspirar o grupo, em vez
de expirar. Em primeiro lugar, o líder tem de ser humilde e
perceber que há outros modos de fazer e pensar. Outra
virtude
da liderança é diferenciar os modelos de
gestão
e produção que não passam de modismos
(a
novidade) daqueles que revolucionam e são perenes (o novo).
O
líder só pode estabelecer esses
critérios quando
sabe para onde vai e está sempre estudando, ouvindo,
conversando... Por fim, ele tem de inspirar e elevar a
condição
do grupo.
POR
QUE É TÃO IMPORTANTE APRENDER COM OS OUTROS?
Nesse
cenário competitivo em que vivemos, o líder tem
de
ampliar seu repertório e ultrapassar o óbvio. E
ele não
pode fazer isso se estiver preso a modelos mentais, tornando-se um
refém de determinados modos de raciocínio e
ação.
Nos últimos cinco anos, empresas com inteligência
estratégica vêm recorrendo a ciências
como
filosofia, antropologia e sociologia para ampliar as possibilidades
de intervenção e compreensão da
realidade.
COMO
DISTINGUIR O NOVO DA NOVIDADE EM MEIO A TANTAS TEORIAS SOBRE
GESTÃO?
Um
líder tem de ter objetivos claros e estabelecer
critérios
sólidos para identificar o que não passa de
modismo. É
um perigo supor que, porque leu um livro sobre certo tema,
você
pode simplesmente transportar aquilo que estudou para a empresa sem
conversar com os outros, sem ver o nível de aplicabilidade e
avaliar se trata-se apenas de algo passageiro.
COMO
UM LÍDER INSPIRA E ELEVA A CONDIÇÃO DO
GRUPO?
Um
líder inspirador é aquele que faz com que as
pessoas
respirem juntas uma determinada percepção,
projeto,
idéia. É aquele que fortalece e dá
unidade, ou
seja, que promove a sinergia do grupo. Para tanto, a equipe precisa
estar em sintonia, o que só é possível
quando
existe simpatia. Isso não quer dizer camaradagem, tapinha
nas
costas... É sinônimo de respeito. Representa a
capacidade de enxergar o outro e elevar seu conhecimento e seu
trabalho. Muitas vezes um chefe diz: "Não sei qual o
problema do nosso grupo. A gente se mata de trabalhar e as coisas
não
acontecem". Isso geralmente ocorre porque falta simpatia. Falta
olhar o outro como outro, e não como um estranho.
QUANDO
A TENTATIVA DE INSPIRAR É AUTENTICA E QUANDO É
APENAS
MAIS UM ARTIFÍCIO PARA ALIENAR O FUNCIONÁRIO?
Se
sou um líder, preciso ter uma relação
leal com
os liderados. E isso significa que preciso ter a sinceridade como uma
de minhas virtudes. Não posso enganar as pessoas, fingir que
nosso trabalho e a empresa estão indo bem, quando isso
não
acontece. O líder dissimulado é desmascarado mais
cedo
ou mais tarde. Se existe algo negativo, quando você
está
numa condição ruim, é
alguém tentar
enganar você com relação ao seu estado.
O líder
diz o que precisa ser dito. Quem dissimula uma
situação
está tentando animar a equipe de uma forma equivocada. E
isso
é um perigo.
O
QUE FAZER SE A EMPRESA NÃO OFERECE
CONDIÇÕES
PARA O LÍDER ELEVAR SUA EQUIPE?
Uma
das principais qualidades de um líder é sua
capacidade
de oferecer horizontes. Antes de mais nada, ele é
alguém
inconformado. Pode até não ter
condições,
naquele momento, de atender às necessidades de seu time. Mas
pode dizer "vamos ter, precisamos ter, teremos". E não
de uma forma vazia, mas concreta. Ele precisa partilhar o sonho e
juntar as pessoas à sua volta para buscar esse objetivo.
O
LÍDER IDEAL É HUMILDE, INSPIRA E ELEVA. NA
PRÁTICA,
O QUE VEMOS NAS EMPRESAS?
O
mundo ideal é o mundo da percepção
daquilo que
você pode fazer. Na prática, muitas
organizações
enfrentam uma crise de liderança provocada, principalmente,
pela confusão entre chefe e líder. Um dos
critérios
para escolher um chefe deveria ser sua capacidade de liderar. Mas
muitas empresas têm chefes que não inspiram nem
elevam a
condição coletiva. Outro problema é o
fato de a
liderança não estar em constante
formação:
é colocada uma expectativa imensa sobre o líder,
sem
que ele receba as ferramentas necessárias para fazer seu
trabalho. Além disso, muitas vezes os liderados
também
não têm formação
contínua. E isso é
um erro grave, porque a liderança não funciona
sozinha.
Seu papel é fazer com que o sucesso seja
construído
coletivamente. Ao juntar esses três aspectos você
tem uma
receita de fracasso muito comum.
QUAL
A CONSEQÜENCIA DA CRISE DE LIDERANÇA NAS EMPRESAS?
Principalmente
a dificuldade de estabelecer comunidades de trabalho, e não
meros agrupamentos de pessoas. Um líder promove a
reunião
de pessoas com objetivos comuns e, também, com mecanismos de
auto-proteção e preservação
recíproca.
Aquele que é um simples chefe não consegue fazer
isso e
instala apenas um agrupamento, em que o conflito dá lugar ao
confronto, ou seja, à tentativa de anular e vencer o outro,
em
vez de convencê-lo. Esse chefe, muitas vezes, faz com que as
pessoas trabalhem no limite. Diz que os profissionais só
rendem sob pressão. Ele também estimula a
competitividade extrema e recorre à linguagem militar,
instalando uma espécie de guerra civil dentro da empresa.
Isso
pode até assegurar resultados no curto prazo, mas
não
garante perenidade.
QUAL
O IMPACTO DESSA GUERRA CIVIL NAS ORGANIZAÇÕES?
Cria-se
um cenário em que os profissionais olham o colega de
trabalho
como inimigo e vivem num estado de tensão permanente. Esse
modelo leva ao desgaste, ao estresse e, portanto, à ruptura
interna -- nome, aliás, que se dá ao enfarto,
resultado
de um estresse na capacidade de ação do
músculo
cardíaco. Alguns chefes enfartam seus grupos. E depois
reclamam que eles não são capazes, não
têm
força. Um conselho para os chefes que ainda agem assim:
já
está ficando tarde para mudar de comportamento.
Não é
esgotando seu maior ativo, que são as pessoas, que
você
vai atingir os resultados que espera. Isso é sinal de
estupidez. Há 20 anos, as empresas trabalhavam a
noção
de competência individual. Hoje, a lógica
é
outra. É preciso estruturar a força das equipes.
Se
você ganha, eu ganho; se você perde, eu perco. E
essa
relação interdependente não pode
admitir a
instalação do confronto interno.
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